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Permanecer conectado a uma máquina de hemodiálise por 3 a 4 horas seguidas, três vezes por semana, é uma rotina exaustiva que exige resiliência física e mental extrema. Restritos à poltrona hospitalar, muitos pacientes enfrentavam esse período em silêncio, imobilidade e com baixa disposição para realizar exercícios terapêuticos. Em Belém, no Pará, essa realidade mudou drasticamente graças a uma iniciativa que uniu ciência em saúde, serviço público e cultura gamer.
O projeto PLAYNEFRON, idealizado pelo fisioterapeuta e professor universitário Patrick Abdoral na Fundação Pública Estadual Hospital de Clínicas Gaspar Vianna, levou o Nintendo Switch, Realidade Virtual e Smart TVs para dentro da sala de terapia renal substitutiva. Com acompanhamento clínico rigoroso, a intervenção alcançou uma marca histórica no serviço: elevou a taxa de adesão dos pacientes à fisioterapia de 36,71% para 100%.
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- ▸ A rotina da hemodiálise e o desafio biológico da imobilidade intradialítica
- ▸ Sarcopenia urêmica e o papel fisiológico do exercício durante a filtragem
- ▸ Patrick Abdoral: hiperfoco, vivência com TEA e empatia no SUS
- ▸ "Jogar é o recurso. Reabilitar é o objetivo": a fundamentação científica
- ▸ Biomecânica dos Joy-Cons: giroscópios, arcos de movimento e Escala de Borg
- ▸ Realidade Virtual e cicloergômetro: imersão visual reduzindo a percepção de dor
- ▸ Protocolos de biossegurança: esterilização e proteção do acesso vascular
- ▸ De 36,71% para 100%: a transformação da cultura assistencial no 3º turno
- ▸ Inovação e responsabilidade na gestão pública
- ▸ Prêmio Inova Servidor e a repercussão na comunidade científica de nefrologia
- ▸ Vídeo oficial e podcast: assista aos bastidores e à entrevista de Patrick Abdoral
- ▸ Conclusão: dignidade, tecnologia acessível e o futuro da humanização hospitalar
- ▸ Perguntas frequentes
A rotina da hemodiálise e o desafio biológico da imobilidade intradialítica

Para entender a relevância do PLAYNEFRON, é preciso encarar a rotina real de quem depende da terapia renal substitutiva. O paciente com doença renal crônica terminal precisa comparecer ao hospital de duas a quatro vezes por semana. Cada sessão dura entre 3 e 4 horas ininterruptas, período no qual o sangue é filtrado externamente por um dialisador antes de retornar ao organismo.
Durante esse ciclo, o paciente permanece sentado ou deitado em uma poltrona, monitorado continuamente por sensores e conectado ao circuito extracorpóreo por uma fístula arteriovenosa ou cateter venoso central. A restrição motora e a monotonia prolongada frequentemente geram quadros de fadiga, dores musculoesqueléticas, ansiedade e desânimo generalizado.
A fisioterapia intradialítica — realizada exatamente enquanto a máquina está funcionando — é amplamente recomendada pela literatura médica para preservar a massa magra, combater a sarcopenia e prevenir complicações cardiovasculares. O grande gargalo das equipes hospitalares sempre foi convencer o paciente a se exercitar nesse momento de vulnerabilidade física.
Sarcopenia urêmica e o papel fisiológico do exercício durante a filtragem

Pacientes renais crônicos sofrem com a chamada síndrome do desgaste proteico-energético. A inflamação crônica de baixo grau e o acúmulo de toxinas urêmicas aceleram a quebra de fibras musculares esqueléticas. Sem estímulo contrátil regular, a perda de força avança rápido, resultando em fraqueza progressiva, risco elevado de quedas e perda de autonomia nas atividades básicas de vida diária.
A literatura científica em nefrologia comprova que o exercício físico intradialítico não apenas desacelera a atrofia muscular, mas melhora a própria eficácia da hemodiálise. A contração muscular estimula o fluxo sanguíneo periférico, abrindo leitos capilares que facilitam a mobilização de ureia, fósforo e potássio dos tecidos para o compartimento intravascular, onde essas substâncias são depuradas pela máquina.
Exercitar-se com halteres monótonos ou faixas elásticas cinzentas após duas horas de diálise causa rejeição compreensível em quem já lida com cãibras, hipotensão e desconforto físico. Tornar essa contração muscular lúdica e interativa foi a chave biológica e psicológica que Patrick Abdoral utilizou para virar o jogo da reabilitação.
Patrick Abdoral: hiperfoco, vivência com TEA e empatia no SUS

O responsável pela virada de chave no Hospital Gaspar Vianna é Patrick Abdoral, 27 anos. Patrick atua como fisioterapeuta e servidor público estadual da instituição, professor universitário e pesquisador, pessoa diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e fã apaixonado pelo universo dos jogos eletrônicos desde a infância.
A conexão entre seu foco hiperconcentrado, sua sensibilidade para dinâmicas de acolhimento e seu conhecimento biomecânico permitiu enxergar a sala de diálise sob uma nova perspectiva. Patrick percebeu que a recusa aos exercícios convencionais não era preguiça ou desinteresse, mas reflexo de um ambiente hospitalar que reduzia o indivíduo ao prontuário médico.
Antes de ligar o primeiro videogame na enfermaria, Patrick conversou com cada um dos pacientes do 3º turno de hemodiálise. Buscou compreender histórias de vida, queixas diárias, interesses pessoais e os motivos específicos que levavam à recusa do atendimento fisioterapêutico padrão.
"Jogar é o recurso. Reabilitar é o objetivo": a fundamentação científica

O PLAYNEFRON não consiste em improvisar um console de jogos dentro de uma enfermaria. Patrick estruturou a iniciativa sobre três pilares essenciais: fundamentação científica rigorosa, avaliação biomecânica contínua e compreensão profunda dos trâmites administrativos do serviço público.
No pilar científico, o projeto realizou uma revisão sistemática da literatura especializada para respaldar o uso de exergames em nefrologia. Foram elaboradas Instruções de Trabalho (ITs) detalhadas e protocolos clínicos que regulam cada minuto de atividade, respeitando a estabilidade hemodinâmica do paciente, a pressão arterial e a ausência de intercorrências dialíticas.
A segurança do acesso vascular é tratada com rigor absoluto. Pacientes com fístula em membro superior realizam movimentos controlados com o braço livre ou focam em membros inferiores, respeitando a prescrição de anticoagulação da sessão. A intervenção utiliza instrumentos de mensuração objetiva, como o goniômetro para avaliar a amplitude de movimento articular e o dinamômetro para aferir a força de preensão manual e muscular.
- Avaliação goniométrica contínua da amplitude de movimento de membros superiores e inferiores
- Dinamometria manual para monitorar ganho e manutenção da força muscular ao longo dos meses
- Critérios rígidos de estabilidade clínica pré-atividade (pressão arterial, frequência cardíaca e saturação)
- Proteção biomecânica estrita do membro com fístula arteriovenosa ou cateter dialítico
- Instruções de Trabalho padronizadas registradas nos fluxos do Hospital Gaspar Vianna
Biomecânica dos Joy-Cons: giroscópios, arcos de movimento e Escala de Borg

A escolha do Nintendo Switch foi uma decisão técnica baseada na ergonomia e nos sensores de movimento dos controles Joy-Con. Pesando apenas cerca de 50 gramas cada, eles não sobrecarregam a musculatura distal do paciente e contam com giroscópios e acelerômetros com resposta tátil de alta fidelidade.
Jogos como Nintendo Switch Sports exigem movimentos que replicam padrões clássicos da cinesioterapia: flexão e abdução de ombro, pronação e supinação de antebraço e dissociação de cinturas escapular e pélvica. O paciente ajusta a velocidade do golpe no tênis com base no feedback visual instantâneo na tela.
Para controlar o esforço e evitar sobrecargas cardiovasculares, Patrick utiliza a Escala de Percepção Subjetiva de Esforço de Borg. As sessões de jogo são dosadas de acordo com os parâmetros estabelecidos no protocolo, garantindo estímulo adequado sem provocar sobrecarga ou fadiga excessiva.
Realidade Virtual e cicloergômetro: imersão visual reduzindo a percepção de dor

Para trabalhar membros inferiores sem exigir que o paciente saia da poltrona, o projeto integrou cicloergômetros hospitalares de solo conectados a headsets de Realidade Virtual. O paciente encaixa os pés nos pedais ergonômicos e ajusta a resistência magnética conforme prescrição do fisioterapeuta.
Ao colocar os óculos de Realidade Virtual, o cérebro recebe estímulos sensoriais que desviam o foco do ambiente hospitalar e do ruído contínuo das bombas infusoras. A imersão em cenários virtuais — como passeios por florestas, ciclovias ensolaradas e paisagens relaxantes — ativa circuitos de recompensa dopaminérgica e reduz a percepção subjetiva de dor e desconforto.
Essa combinação transforma o exercício aeróbico intradialítico em uma experiência imersiva e prazerosa. O paciente pedala por 15 a 30 minutos sem perceber o tempo passar, exercitando quadríceps, isquiotibiais e tríceps sural, o que auxilia no retorno venoso e na diminuição de edemas comuns em renais crônicos.
Protocolos de biossegurança: esterilização e proteção do acesso vascular
Um dos pontos mais sensíveis na introdução de eletrônicos em ambiente hospitalar é a biossegurança e o controle de infecções relacionadas à assistência à saúde (IRAS). Trata-se de um setor de acesso restrito, no qual são atendidos pacientes com acessos vasculares invasivos, o que exige medidas adequadas de biossegurança e controle de infecções.
No PLAYNEFRON, todos os periféricos — Joy-Cons, suportes, tiras elásticas de fixação e superfícies de contato dos headsets de Realidade Virtual — passam por desinfecção de nível intermediário com álcool 70% ou quaternário de amônio hospitalar antes e após cada atendimento. Capas protetoras descartáveis de silicone e tecido não tecido (TNT) são trocadas a cada usuário.
Durante as partidas, o membro que abriga a fístula arteriovenosa (FAV) permanece imobilizado em repouso absoluto sobre o coxim da poltrona, garantindo que as agulhas de punção não sofram tração ou desvio. Caso o paciente possua cateter duplo lúmen na veia jugular ou subclávia, os movimentos de pescoço e membros superiores são rigorosamente restritos aos ângulos autorizados pela avaliação fisioterapêutica prévia.
De 36,71% para 100%: a transformação da cultura assistencial no 3º turno

O resultado mais expressivo do projeto surgiu nos relatórios de adesão hospitalar. No início da atuação de Patrick no 3º turno do serviço de terapia renal substitutiva, a taxa de pacientes que aceitavam realizar as sessões de fisioterapia era de apenas 36,71%. Mais de 63% recusavam os exercícios tradicionais com elásticos, faixas e halteres.
Após a implementação estruturada do PLAYNEFRON, o índice de aceitação atingiu 100% entre os pacientes presentes no turno. O absenteísmo decorrente de fatores climáticos ou sociais ainda ocorre pontualmente, mas nenhum paciente presente na sala recusa o atendimento fisioterapêutico.
A mudança de postura transformou o clima do setor. O período de 4 horas, antes encarado como uma contagem regressiva desgastante, passou a ser aguardado como um momento de convivência, competição saudável e superação pessoal.
Inovação e responsabilidade na gestão pública

A implementação de uma inovação dessa natureza em uma fundação pública estadual envolve etapas administrativas e institucionais que precisam ser compreendidas e respeitadas. Em instituições públicas do SUS, a aquisição de equipamentos e tecnologias segue normas, procedimentos e princípios que buscam garantir a adequada aplicação dos recursos públicos, a transparência e a sustentabilidade das iniciativas.
Nesse processo, foi necessário apresentar e fundamentar tecnicamente a proposta, demonstrando a finalidade assistencial dos equipamentos e sua relação com os objetivos do projeto. A elaboração da documentação técnica permitiu caracterizar os recursos tecnológicos não apenas como equipamentos de entretenimento, mas como ferramentas inseridas em uma proposta de assistência e reabilitação mediada por tecnologia.
Embora esse percurso possa ser desafiador, compreender as etapas administrativas e os princípios que orientam a gestão pública contribui para que a burocracia cumpra sua finalidade de dar segurança, transparência e sustentabilidade ao projeto. Assim, a inovação pode ser incorporada de maneira responsável e alinhada às normas institucionais.
Prêmio Inova Servidor e a repercussão na comunidade científica de nefrologia

O impacto do PLAYNEFRON ultrapassou as paredes do Hospital de Clínicas Gaspar Vianna. O projeto conquistou o 2º lugar na categoria Serviços do Prêmio Inova Servidor, iniciativa promovida pela Escola de Governança Pública do Estado do Pará (EGPA) para valorizar práticas inovadoras na administração pública.
A relevância da metodologia levou a iniciativa a alcançar expressiva repercussão acadêmica. Alunos orientados por Patrick apresentaram trabalhos científicos fundamentados nos desfechos do projeto em fóruns de destaque nacional: um evento regional de reabilitação, o Congresso Paulista de Reabilitação e dois trabalhos no Congresso Brasileiro de Nefrologia.
A consolidação científica do projeto atingiu um marco histórico com a publicação formal no Brazilian Journal of Nephrology (BJN), sob o título "Relato de experiência do projeto PLAYNEFRON: uma estratégia lúdica e humanizada em hemodiálise". O artigo científico documenta os dados clínicos, o acolhimento multiprofissional e a viabilidade do modelo para hospitais públicos do SUS em todo o Brasil.
Vídeo oficial e podcast: assista aos bastidores e à entrevista de Patrick Abdoral
Para conhecer os detalhes da metodologia e ouvir Patrick Abdoral explicando a construção do PLAYNEFRON, assista abaixo ao episódio completo do podcast Gestão em Foco. A participação de Patrick tem início aos 33:38 do vídeo, onde ele descreve a rotina das enfermarias e os bastidores da conquista do Prêmio Inova Servidor.
Conclusão: dignidade, tecnologia acessível e o futuro da humanização hospitalar
O PLAYNEFRON prova que a fronteira entre tecnologia de entretenimento e assistência à saúde é menor do que a maioria das instituições imagina. Quando guiado por planejamento, método e respeito à individualidade humana, um console doméstico se converte em instrumento de reabilitação e dignidade.
Ao transformar horas de angústia em momentos de vitória e superação para quem depende de uma máquina para continuar vivo, Patrick Abdoral e a equipe do Hospital Gaspar Vianna apontam um caminho claro para o futuro do SUS: inovação acessível, ciência aplicada e humanização real.
Perguntas frequentes
O que é o projeto PLAYNEFRON?
O PLAYNEFRON é um projeto de fisioterapia intradialítica desenvolvido no Hospital de Clínicas Gaspar Vianna, em Belém (PA), que utiliza videogames (como o Nintendo Switch) e Realidade Virtual para reabilitar pacientes com doença renal crônica durante as sessões de hemodiálise.
Quem é o criador e supervisor do projeto PLAYNEFRON?
O projeto foi criado e é supervisionado pelo fisioterapeuta Patrick Abdoral, de 27 anos, professor universitário, pesquisador, servidor público estadual da Fundação Gaspar Vianna e pessoa com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Jogar videogame durante a hemodiálise é seguro?
Sim. As sessões do PLAYNEFRON seguem Instruções de Trabalho rigorosas elaboradas após revisão sistemática da literatura. São respeitados critérios clínicos de estabilidade hemodinâmica, pressão arterial e proteção estrita do membro com fístula arteriovenosa ou cateter venoso central.
Qual foi o impacto do PLAYNEFRON na adesão dos pacientes à fisioterapia?
O índice de pacientes que aceitavam o atendimento fisioterapêutico no 3º turno de hemodiálise saltou de 36,71% para 100% dos pacientes presentes após o início das intervenções lúdicas com videogames.
Quais instrumentos clínicos comprovam a eficácia da reabilitação?
O projeto utiliza goniômetros para mensurar a amplitude de movimento articular e dinamômetros para aferir a força muscular de preensão, além da Escala de Borg para monitorar a percepção de esforço e sinais vitais contínuos.



