O Pomar das Almas Perdidas (Nadifa Mohamed)

O que une mais as pessoas, o amor ou o ódio?
É possível viver aquém de marcas, magoas profundas e traumas preservando sua essência, aliás é possível mesmo em tais condições reconhecer sua existência, ou o que somos e nossas ações são apenas o produto do que nossas experiências passadas nos tornaram?
Em O Pomar das Almas Perdidas (Editora Alaúde, 296 páginas), Nadifa Mohamednos apresenta três mulheres que tem seus destinos cruzados em uma festividade nacional e posteriormente se reencontram em meio a acontecimentos que culminam em guerra civil na Somália de 1987.
Kawasar, uma senhora viúva já em idade relativamente avançada, vê em Deqo, uma garotinha de 9 anos vinda de um campo de refugiados, a possibilidade de compensar um erro do passado. Enquanto Filsan, uma altiva e jovem soldado da revolução completamente crente no regime, que cresceu a sombra de um pai rígido que não admitia falhas, deseja apenas que tudo corra conforme o planejado e que a reconheçam como a excelente soldado que é.
Estando acostumados a ver da Somália, e isso quando vemos, apenas imagens de fome generalizada, caos e crianças desnutridas em campos de concentração nos noticiários, é uma surpresa agradável ver as cores, sentir os cheiros, imaginar as paisagens naturais e a musicalidade das palavras descritas por Nadifa que faz surgir aos nossos olhos uma Somália cheia de vida, de vontade de permanecer viva.
Embora trate de um tema pesado a trama tem um desenrolar leve de se acompanhar, em tom de conversa intima e divagações pessoais com o leitor, o que por vezes o coloca no centro dos acontecimentos dentro da pele dos personagens sentindo a perda da inocência, a brutalidade da guerra, o horror dos atos que nós mesmos podemos cometer e a perca da fé, mas também a inesperada bondade humana, mesmo que não totalmente desprovida de interesse, o amor onde menos se esperaria, e sua fragilidade, e finalmente como o destino pode ser curioso e brincar com a vida de forma inesperada.
Indo aos pontos técnicos, logicamente que se tratando de uma obra de ficção e não de uma biografia alguns excessos são perdoados, como encontros e coincidências improváveis mas que servem ao enredo, caso contrário o mesmo não se desenvolveria, mas é bom salientar que por pouco a autora não escorrega além dessa linha.
Há também equilíbrio entre o momento presente e os flashbacks das personagens de forma a não tornar a história confusa, mesmo com as abundantes palavras, para nós estrangeiras, em somali.
O livro como um todo não é pretensioso, é na verdade muito sensível e a percepção do significado do título pode até mesmo marejar os olhos de almas mais doces, mas para a próxima Nadifa Mohamed poderia ousar um pouco mais em seus desfechos, propondo algo mais complexo mas ainda sim crível, pois sei que vocês, leitores, são mais do que capazes de acompanhar e processar finais assim.

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