O Finado Sr. Gallet (Georges Simenon)

Este é um daqueles casos em que um livro chega casualmente em suas mãos, e você inicia a leitura sem a menor noção de que está com um clássico em mãos, escrito por um autor consagrado, com uma história por trás que vai bem além das suas páginas, e apenas uma peça de uma série maior. O resultado é uma estranha sensação que mistura satisfação, com certa vergonha por essa falta de conhecimento.
Pensando ler o que seria apenas um pouco de ‘mais do mesmo’ dentro de tantas variações do gênero policial, eu incidentalmente tive o meu primeiro contato com o trabalho do escritor belga Georges Simenon, um romancista que ostenta mais de 400 obras em sua biografia, além de dezenas de novelas, contos e artigos sob 27 pseudônimos diferentes. “O Finado Sr. Gallet” compõe a galeria de casos do Comissário Maigret, o personagem mais famosos do autor que protagoniza mais de 70 novelas e contos de Simenon.
Em uma de suas primeiras aventuras, o Comissário Maigret investiga o assassinato de Emille Gallet, cujo corpo foi encontrado em um quarto de hotel em Sancerre. Minuciando o perfil da vítima, o Comissário descobre que Gallet levava uma vida dupla, e descobre um esquema que o levará até a cidade de Paris e a cantos obscuros do caráter humano.
Diferente de outros títulos do gênero que procuram apresentar uma trama exageradamente elaborada para jogar com a mente do leitor, Simenon aposta a sua escrita na personalidade forte de suas personagens, extraindo o melhor do comportamento humano para construir um  enredo envolvente que nos leva a constante expectativa do próximo ato. Em um cenário em que todos parecem ter a culpa de parecerem tão inocentes, o autor exibe figuras dúbias que quebram as construções de conceitos dos leitores a cada novo capítulo.
A história nos leva à uma atmosfera particular, edificada por sensações, formas e sentimentos que proporcionam uma experiência a parte, escrita nas entre linhas de cada página dessa intriga.
A edição lançada pela Companhia das Letras mede aproximadamente um palmo, e quase que pode ser considerada uma edição de bolso. Deixando a curiosidade de saber como uma história tão bem desenvolvida, coube em páginas pequenas.
Com uma leitura rápida, o livro consegue deixar aquele gostinho de ‘quero mais’, com a alegria de saber que existe pelo menos outras 70 obras do autor envolvendo o determinado Comissário Maigret.

Deixe uma resposta